Quando o sucesso do outro reabre uma ferida que você achava curada
Ver quem nos prejudicou alcançar o topo mexe com a estrutura. Mas o desconforto raramente é sobre a vida alheia: é sobre o que ainda arde na nossa própria história.
Quando o sucesso do outro reabre uma ferida que você achava curada
Esta semana, uma notícia atravessou minha rotina sem pedir licença: uma antiga colega de trabalho tomou posse como Promotora de Justiça em Santa Catarina.
Em questão de segundos, o estômago deu aquele nó característico. Imagens que eu considerava arquivadas voltaram com a nitidez de um arquivo recém-aberto: as conversas de corredor, a sensação de incapacidade, a demissão que ela ajudou a articular e o sentimento de humilhação que me acompanhou por meses. Vê-la celebrando uma conquista de topo não foi simples de digerir. Bateu na trave de dores antigas, do tempo em que eu ainda tentava me encaixar no universo dos concursos e da assessoria jurídica.
Mas, quando a poeira emocional baixa, a única pergunta que realmente importa é: por que isso ainda mexe comigo? E a resposta nunca é sobre ela. É sobre mim.
Onze anos forçando um encaixe que não existia
Passei onze anos trabalhando como assessora no Ministério Público. Nesse período, trabalhei diretamente com quatro promotores de justiça. Fui exonerada por três deles — dois homens e uma mulher.
Quem já passou pela experiência de ser demitido sabe o peso de recolher as próprias coisas, inventar uma explicação plausível para os conhecidos e recomeçar do zero em outro gabinete, com outra rotina, sob a desconfiança tácita de quem recebe alguém dispensado por um colega. Amigas me perguntavam de onde eu tirava forças para recomeçar tantas vezes. A resposta não tinha nada de nobre ou resiliente: era pura necessidade de pagar as contas no fim do mês.
Para tentar dar conta da exigência e do sentimento constante de inadequação, cheguei a me convencer de que tinha TDAH. Entupi meu corpo com remédios para manter a concentração, tentando forçar meu cérebro a funcionar em uma engrenagem que me repelia por inteiro.
Quando o corpo e a mente cobram a conta
O ponto mais crítico dessa travessia aconteceu na promotoria da Infância e Juventude, bem no início da pandemia, em 2020. A rotina consistia em ler, instruir e processar diariamente casos brutais de violência, abuso e vulnerabilidade extrema envolvendo crianças e adolescentes.
Eu não conseguia blindar a minha sensibilidade. Não conseguia tratar aquela dor humana brutal como mero número de processo ou despacho burocrático. O resultado foi um colapso em cadeia: crises de ansiedade severas e o ápice de uma doença de pele autoimune e psicossomática, que cobriu meu corpo como um reflexo visível do ambiente em que eu estava imersa.
Foi exatamente nessa fase que aquela colega chegou ao gabinete. Em vez de cautela profissional, cometi o erro de acolher, desabafar e compartilhar detalhes da minha vida pessoal e do meu histórico no órgão. Com o tempo, a postura reservada dela revelou uma dinâmica silenciosa e perigosa: informações de trabalho retidas, distorções levadas diretamente à chefia e um ambiente tóxico que culminou na minha demissão em março de 2024.
Naquele momento, mais uma vez, o chão se abriu. A sensação de ter sido descartada e passada para trás doeu fundo.
O espelho incômodo da comparação
Quando vejo essa mesma pessoa assumir a carreira dos sonhos da maioria dos bacharéis em Direito, o primeiro impulso da mente é protestar contra a injustiça das coisas. A mente quer apontar o dedo, resgatar o histórico de má conduta e questionar o mérito.
Mas essa reação é apenas uma casca protetora. Olhando de forma adulta, o incômodo surge porque o sucesso dela funciona como um espelho de alta resolução. Ele reflete o período em que eu insistia em ser aprovada por um sistema que me adoecia; reflete o medo que eu tinha de admitir que aquele não era o meu lugar; reflete a dor de ter confiado ingenuamente em quem usou minhas fragilidades como degrau.
Ela seguiu a rota que fazia sentido para os valores e objetivos dela, e colheu o resultado do jogo que escolheu jogar. O ponto nunca foi o mérito ou a conduta dela. O ponto sou eu.
O alívio de não pertencer àquele lugar
Revisitar essas memórias não serve para alimentar ressentimentos, mas para medir o tamanho do descolamento entre quem eu era ali e quem sou hoje.
Curar a doença de pele, deixar a área jurídica e assumir uma transição de carreira sem glamour, construída passo a passo com as minhas próprias mãos, exigiu abrir mão da validação institucional que eu tanto buscava naquele prédio. A demissão de 2024, que na época pareceu uma punição injusta, foi na verdade a ruptura forçada de um ciclo que eu não tinha coragem de encerrar por vontade própria.
O sucesso do outro só nos desestabiliza quando ainda guardamos alguma dúvida sobre a nossa própria escolha. Quando assumimos o custo e a liberdade do nosso próprio caminho, o palco dos outros deixa de ser uma ameaça e passa a ser apenas o que sempre foi: a vida deles acontecendo lá, enquanto a nossa, finalmente de verdade, acontece aqui.